A sustentabilidade em debate nas 26.as Jornadas da Climatização e da Refrigeração

Christina Genet
A REHVA e o Capítulo Português da ASHRAE organizaram o evento, que teve lugar a 15 de outubro de 2026 no LNEC.
A transição energética esteve em destaque nas 26.as Jornadas da Climatização e da Refrigeração que decorreram no auditório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), no passado dia 15 de outubro. Organizado pela REHVA e pelo Capítulo Português da ASHRAE, o evento reuniu oradores nacionais e internacionais para debater o papel da engenharia na descarbonização do setor AVAC através de tecnologias inovadoras.
Após a sessão de abertura conduzida por Dina Paz Dimas, Vice-Presidente nacional da Ordem dos Engenheiros (OE), e Odete de Almeida, Coordenadora da Especialização em Climatização e Refrigeração da OE, teve lugar o primeiro painel do dia, dedicado à descarbonização dos edifícios e à qualidade do ar interior.
Chandra Sekhar, Professor na Universidade Nacional de Singapura e Vice-Presidente da ASHRAE, apresentou uma metodologia para avaliar o estatuto atual da Qualidade do Ar Interior (IAQ), bem como vários estudos de caso que evidenciaram a importância da ventilação na redução dos níveis de CO2 em espaços fechados. Sublinhou, contudo, que não se trata de escolher entre a IAQ e a poupança de energia, uma vez que ambas são complementares. Previu, por isso, que a monitorização contínua em tempo real e a análise de dados irão assumir uma importância crescente no futuro.
Por sua vez, Eduardo Maldonado, Diretor Regional da ASHRAE Europa e Professor da FEUP, destacou a necessidade de reabilitar os edifícios e os sistemas AVAC existentes, salientando que 90 % dos edifícios que existirão em Portugal em 2050 – ano em que a União Europeia pretende alcançar a neutralidade carbónica – já existem atualmente.
No entanto, Portugal e os seus vizinhos enfrentam dificuldades na transposição das diretivas europeias para a legislação nacional. Embora o prazo para a transposição da revisão da Diretiva relativa ao Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) de 2024 tenha terminado em maio de 2026, nenhum Estado-Membro tinha ainda concluído esse processo à data do evento. Paralelamente, os apoios públicos destinados a incentivar a reabilitação dos edifícios têm vindo a diminuir. Eduardo Maldonado defendeu o reforço dos apoios públicos à reabilitação, sublinhando que, se a descarbonização dos edifícios “não for affordable, não será aplicada”.
As vantagens de Portugal para a indústria dos data centers
No segundo painel, debateu-se a forma como os centros de dados estão a abrir novas oportunidades de negócio para os profissionais do setor da climatização. Para Luís Duarte, Presidente da Associação Portuguesa de Centros de Dados e primeiro orador do painel, a atratividade de Portugal para a indústria dos data centers é inegável. O país distingue-se pelos custos competitivos da energia e pela descarbonização do seu mix energético: em 2025, 68 % da eletricidade consumida em Portugal teve origem renovável. Além disso, conta com uma elevada concentração de cabos submarinos, que asseguram uma forte conectividade digital internacional. O clima atlântico e temperado proporciona-lhe ainda muitas horas de funcionamento em modo free cooling. Por sua vez, Guilherme Martins da Navitas, empresa de consultoria especializada na conceção e construção de centros de dados de grande escala, apresentou um trabalho sobre a modelação energética destas infraestruturas.
Após a pausa para almoço, as jornadas prosseguiram com o terceiro painel do dia dedicado à refrigeração. Marco Madureira, engenheiro projetista da Chilltek, abordou a utilização do CO2 em sistemas de refrigeração como alternativa aos refrigerantes convencionais. Apresentou várias soluções para a refrigeração comercial, nomeadamente a compressão paralela, o subcooling e os gas coolers com arrefecimento adiabático, destacando também as possibilidades de recuperação de calor. Seguiu-se a intervenção de Ángel Ros Dolz, Diretor da Área Tewis Portugal, centrada nos sistemas frigoríficos transcríticos com subarrefecimento mecânico inteligente. O orador explicou que o sistema compensa a perda de eficiência através da otimização do ciclo termodinâmico, salientando a sua capacidade de funcionamento mesmo a uma temperatura de 10 °C. Segundo Ángel Ros Dolz, em climas mais quentes, as poupanças energéticas são ainda maiores.
Um sistema de ventilação inovador para preservar obras de arte
A intervenção de Michel Grabon, Diretor da área de data centers da Carrier, sobre o controlo das condições ambientais no interior da Capela Sistina foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes do quarto e último painel do dia. Perante o aumento do número de visitantes, o Vaticano deu o alerta em 2010: os frescos de Michelangelo que decoram a capela estavam a degradar-se significativamente. Foi então que a Carrier recebeu a missão de desenvolver um sistema de ventilação capaz de assegurar a renovação do ar num espaço que podia acolher até 2000 visitantes em simultâneo. Para responder a este desafio, a equipa liderada por Michel Grabon desenvolveu um sistema de vídeo capaz de contabilizar em tempo real as pessoas que entravam na capela e instalou um difusor de ar no seu interior. “Foi necessário inventar coisas que ainda não existiam”, resumiu Michel Grabon.
Após esta apresentação, seguiram-se as intervenções de Daniel Malveira, responsável de soluções da Baxi Portugal, que abordou soluções integradas de climatização para a transição energética, e de Nils Baumann, Diretor da Unidade de negócio de gestão de produto da Delta Controls Alemanha, que analisou o contributo dos sistemas de gestão técnica de edifícios (BMS) para a transição energética. As Jornadas da Climatização e da Refrigeração terminaram com uma homenagem ao engenheiro Serafin Graña, membro conselheiro da Ordem dos Engenheiros, falecido no início de 2026. A sessão de encerramento ficou a cargo de Odete de Almeida e Dina Paz Dimas.
Outros artigos que lhe podem interessar