Entrevista a Serafín Rodríguez Graña

Entrevista por Comissão Técnica da EFRIARC | Fotografia: Christina Genet
Engenheiro Conselheiro Eletrotécnico e Especialista em Engenharia de Climatização e Refrigeração
Membro da Ordem dos Engenheiros e da ASHRAE, Serafín Graña aborda os desafios da descarbonização e da sustentabilidade que o setor do AVAC&R enfrenta, e a integração da inteligência artificial na profissão.
Como iniciou a sua carreira no setor e que momentos marcaram o seu percurso profissional?
O início da minha carreira remonta ao período pré-universitário e universitário, durante o qual, através de estágios, tive contacto direto com a realidade das instalações industriais. Motivado pela curiosidade técnica e pela perceção da importância das instalações técnicas, ingressei no setor industrial e naval, integrado num grande grupo económico. A participação em projetos exigentes, que requeriam rigor e inovação, bem como a integração de soluções sustentáveis, tanto na indústria como nos edifícios, foram fundamentais para o meu desenvolvimento profissional. As minhas experiências em sistemas de climatização de grande escala e em processos de certificação energética consolidaram a minha visão técnica e constituíram momentos decisivos ao longo da minha carreira.
Que avaliação faz atualmente do setor do AVAC em Portugal?
Houve uma redução drástica na dimensão das empresas. Muitas empresas do setor da instalação passaram de oitenta para oito trabalhadores. A falência de empresas do setor da instalação, a que estamos a assistir, é dramática, mas o setor não está morto e o país precisa dele. Contudo, ainda não há uma caracterização exata do que se está a passar. Pelo menos, admito que pior não ficará. No que se refere às técnicas de AVAC e de outras especialidades, passámos do cálculo e do desenho tradicionais para a elaboração de projetos, aplicando as facilidades que passaram a existir com a informatização dos gabinetes, através da aquisição de hardware e software reconhecidos e devidamente licenciados.
Que evoluções observou no setor de AVAC ao longo da sua carreira?
O setor tem evoluído significativamente, indo além da eficiência energética, para incluir preocupações crescentes com o conforto térmico e a qualidade do ambiente interior, nas suas múltiplas vertentes: qualidade do ar interior, conforto acústico e iluminação eficiente. Estas preocupações têm impulsionado o desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados. As instalações térmicas e de conforto estão a atravessar uma fase de intensa transformação, marcada pela revolução energética e pela publicação constante de regulamentação mais exigente. A pandemia trouxe ainda maior atenção para a qualidade do ar nos espaços interiores, intensificando a procura de soluções para ambientes mais saudáveis. Simultaneamente, a descarbonização está a impulsionar o uso de tecnologias de baixo impacto ambiental, como as bombas de calor e os gases renováveis, incluindo o biogás e o hidrogénio. Importa ainda salientar os avanços na digitalização, que têm promovido a eficiência energética dos equipamentos e a redução de desperdícios. Também a publicação da Diretiva EPBD [Energy Performance of Buildings Directive] 2010/31/UE, relativa ao desempenho energético dos edifícios, veio estabelecer e consagrar um quadro comum para o cálculo do desempenho energético.
Que mudança cultural é necessária para o progresso do setor da energia e do AVAC?
É imperativo que todos os intervenientes tenham consciência do modo como se deve realizar e concretizar um investimento. Tudo começa pelo dono de obra, sendo fundamental que este perceba que todo o processo tem o seu tempo e reconheça a importância das fases de conceção, licenciamento e execução. O dono de obra não deverá confundir nem baralhar estas fases, nem os respetivos prazos. O que aparentemente é barato e rápido normalmente sai caro. Todos nós conhecemos histórias reais bem exemplificativas disso mesmo. É sobejamente conhecido que, das três variáveis — BOM, BARATO e RÁPIDO — apenas é possível escolher, em simultâneo, duas delas. Experimentem fazer essas combinações e chegarão a resultados interessantes. As três em simultâneo nunca são conseguidas. Por outro lado, a construção e a gestão de edifícios sustentáveis contribuem para a redução das emissões de gases com efeito de estufa, a conservação dos recursos naturais e a promoção de espaços mais saudáveis e confortáveis. Podemos, em síntese, afirmar que a eficiência energética e a gestão de energia nos edifícios são elementos essenciais para a sustentabilidade, apresentando diversos benefícios, nomeadamente uma forte contribuição para a minimização do impacto ambiental, a redução dos custos operacionais, o reconhecimento do valor de mercado efetivo e a correspondente valorização patrimonial — quer no presente, quer numa eventual futura transação —, a promoção de um ambiente mais saudável e confortável para os ocupantes e a melhoria da qualidade de vida. A eficiência energética e a gestão de energia nos edifícios são, pois, temas centrais da sustentabilidade e isso mesmo vem sendo reconhecido há muito pela União Europeia (UE) e pelos Estados-Membros.
Que grandes desafios o setor está a enfrentar? O que se pode esperar?
Acontece que todas estas exigências legislativas, regulamentares e normativas obrigam, inevitavelmente, os fabricantes a inovar, bem como a acompanhar e apoiar os instaladores, parceiros imprescindíveis ao sucesso das instalações, quer de grande, quer de pequena dimensão. Será necessário que fabricantes, comercializadores, distribuidores e demais profissionais do setor se coloquem na linha da frente no desenvolvimento de equipamentos e soluções adequadas à defesa da qualidade do mercado. A UE, atenta a toda esta temática, lançou um novo pacote de incentivos, que sabiamente denominou NextGenerationEU. Por fim, importa referir que todo este quadro legislativo e regulamentar só será efetivamente eficaz se existir um elo forte e permanente entre a arquitetura e as engenharias. Este desafio, mais do que um desejo, é um imperativo para tornar realidade os objetivos delineados para a transição energética e a renovação do parque edificado europeu.
Na sua opinião, o investimento em políticas de descarbonização vale a pena? A situação do edificado português é suficientemente conhecida para permitir integrar as imposições da nova EPBD sem problemas?
A Comissão Europeia tem vindo a impor regulamentos, como o novo Regulamento F-Gas, que visa reduzir o impacto ambiental dos gases fluorados utilizados em sistemas de refrigeração e climatização. Este novo regulamento originou profundas transformações legislativas e regulamentares que, num processo de evolução sistémica, levarão a indústria do AVAC&R a patamares de eficiência energética ainda mais elevados, a níveis superiores de classificação e etiquetagem, em conformidade com as exigências ambientais em vigor, as quais continuarão a ser atualizadas através de uma permanente e contínua reavaliação.
As alterações climáticas estão a influenciar o desempenho dos sistemas AVAC&R, exigindo soluções mais resilientes e adaptadas a cenários climáticos extremos. Este tema tem sido debatido de forma persistente em fóruns internacionais desde a segunda metade do século passado, procurando-se refletir sobre o papel que os engenheiros podem desempenhar na mitigação e no apoio à sociedade na adaptação às alterações climáticas.
Sou tentado a reconhecer que estas preocupações, nos dias de hoje, não merecem, provavelmente e infelizmente, a devida atenção, face aos conturbados momentos que atravessamos e ao impacto de múltiplos fatores que perigosamente se combinam — guerra na Europa, dirigentes governamentais retrógrados e consultores e influenciadores negacionistas, escassez energética e aumento galopante dos preços do gás e do petróleo — formando, no seu conjunto, um verdadeiro cocktail explosivo. Temos sido testemunhas de tragédias indescritíveis que parecem não ter fim à vista. Ainda assim, reconhece-se que a humanidade tem sido capaz de ultrapassar enormes dificuldades e sobreviver a várias tragédias, explorando para tal todos os recursos ao seu dispor e os saberes acumulados ou em franco desenvolvimento. Muitos cientistas, engenheiros, legisladores e decisores políticos, a nível mundial, têm estado envolvidos na procura de respostas e chegarão certamente a conclusões sensatas.
Para além da eficiência energética, existe uma preocupação crescente com o conforto térmico e a qualidade do ar interior, impulsionando o desenvolvimento de sistemas mais avançados. O setor das instalações térmicas e de conforto atravessa uma fase particularmente intensa de transformação, impulsionada pela revolução energética em curso e por uma regulamentação cada vez mais exigente.
Embora a pandemia tenha promovido uma maior consciencialização em torno da qualidade do ar nos espaços interiores, com uma procura acrescida de soluções para ambientes mais saudáveis, os objetivos da descarbonização impulsionam, por sua vez, o recurso a tecnologias de menor impacto ambiental, como as bombas de calor — que favorecem a eletrificação — e os gases renováveis, como o biogás e o hidrogénio. Não podemos também esquecer os avanços na digitalização, que têm contribuído para a poupança de energia dos equipamentos e para a redução de desperdícios claramente desnecessários.
Como é que vê a integração da IA nos projetos e edificações no futuro próximo?
É inevitável e, por isso, vejo a sua integração com muito interesse. Contudo, importa referir que a utilização da Inteligência Artificial na União Europeia é regulada pela Lei da IA, a primeira legislação abrangente a nível mundial sobre esta matéria. Para uma informação mais completa e uma melhor compreensão deste enquadramento regulamentar, importa analisar de que forma esta lei nos protege. Dada a extensão do documento, aconselha-se a consulta do portal do Parlamento Europeu. (1)
O Parlamento criou igualmente um grupo de trabalho para supervisionar a implementação e a aplicação do regulamento relativo à Inteligência Artificial, uma vez que os eurodeputados pretendem garantir que as regras adotadas contribuam para o desenvolvimento do setor digital na Europa. Este grupo coopera com o Gabinete da Comissão Europeia para a IA (2), criado com o objetivo de esclarecer as disposições-chave da legislação nesta matéria.
Em junho de 2024, a UE adotou as primeiras regras mundiais sobre a inteligência artificial. O Regulamento relativo à IA será aplicável na íntegra 24 meses após a sua entrada em vigor. Algumas disposições serão, no entanto, aplicáveis antes desse prazo, nomeadamente: a proibição de sistemas de IA que apresentem riscos inaceitáveis, aplicável desde 2 de fevereiro de 2025; os códigos de prática, aplicáveis nove meses após a entrada em vigor da legislação; e as regras relativas a sistemas de IA de uso geral sujeitos a requisitos de transparência, aplicáveis 12 meses após a entrada em vigor.
As novas regras estabelecem obrigações para fornecedores e utilizadores em função da classificação do nível de risco dos sistemas de IA. Embora muitos sistemas apresentem um risco mínimo, torna-se essencial proceder à sua avaliação. A classificação a que nos referimos, de forma sucinta, estende-se desde o risco inaceitável — correspondente a aplicações de IA proibidas na UE — até ao risco elevado, que abrange sistemas suscetíveis de afetar negativamente a segurança ou os direitos fundamentais. Note-se que os sistemas classificados como de risco elevado dispõem de mais tempo para cumprir os requisitos, uma vez que as obrigações que lhes dizem respeito serão aplicáveis 36 meses após a entrada em vigor da legislação relativa à Inteligência Artificial.
Aqui chegados, o que de melhor poderemos fazer?
Aqui chegados, teremos de aguardar o que irá acontecer, pois seremos muito provavelmente confrontados com propostas consistentes, algumas verdadeiras e outras potencialmente perigosas e falsas. As fraudes com recurso à inteligência artificial já existem e constituem uma forma sofisticada de criminalidade, em que os golpistas utilizam a tecnologia para enganar, manipular ou explorar indivíduos e até organizações. Embora existam diferentes modalidades, este tipo de prática criminosa baseia-se essencialmente no uso da IA para criar textos, manipular dados ou desenvolver áudios e/ou vídeos, utilizados como ferramentas de persuasão. À medida que a tecnologia avança e expande as suas possibilidades, a tendência será o surgimento de esquemas cada vez mais elaborados, aumentando igualmente a necessidade de estarmos todos atentos a este fenómeno. Teremos, por isso, de manter permanentemente uma postura de vigilância redobrada.
Serafín Graña concluiu a licenciatura em Engenharia Eletrotécnica pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa. No ano seguinte, em 1972, ingressou na Ordem dos Engenheiros, na especialidade de Engenharia Eletrotécnica.
Em 1979, foi fundador da empresa de projetos Termifrio – Projectos e Planeamento Industrial, Lda., que contou, em média, com quatro colaboradores entre 1979 e 2018. A partir dessa data, deixou de ser proprietário da sociedade, passando a exercer funções como consultor externo.
Em 2006, obteve o certificado de pós-graduado como Especialista Universitário em Engenharia de AVAC pela ETSII – Escuela Técnica Superior de Ingenieros Industriales da Universidade de Valladolid, em Espanha. Durante três triénios, exerceu funções dirigentes na Ordem dos Engenheiros, nomeadamente como coordenador da Especialização em Engenharia de Climatização.
Em abril de 2018, foi distinguido com o Prémio Profissional REHVA – Design, pelo seu trabalho de excelência no design de sistemas AVAC e pelo contributo para a eficiência energética e a melhoria do ambiente interior dos edifícios.
Em 2020 e 2021, sob a égide da Ordem dos Engenheiros de Portugal e em colaboração com as associações congéneres de Espanha (ATECYR), França (AICVF), Itália (AICARR) e Turquia (TTMD), foi coorganizador do 10º Congresso CLIMAMED, dedicado ao tema Towards Climate-Neutral Mediterranean Buildings and Cities, tendo sido Serafín Graña nomeado Chair do evento.
Tornou-se membro da ASHRAE em 1980 (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers). Em 2005, apoiou a criação do Capítulo Português da ASHRAE, tendo sido eleito para o Board of Governors, onde desempenhou vários cargos estatutários.
Entre 2017 e 2020, foi eleito Regional Vice Chair – Committee on Technology Transfer (RVC-CTTC), Vice-Presidente Regional para a Transferência de Tecnologia da Região XIV (Europa) da ASHRAE e, entre 2020 e 2023, exerceu funções como Historiador Regional. Destacou-se na promoção da cooperação entre o Capítulo Português da ASHRAE e a Ordem dos Engenheiros, através do desenvolvimento e divulgação de informação técnica e científica, da promoção de tecnologias avançadas e da organização de eventos técnicos, conferências, seminários e visitas técnicas na área da Engenharia de AVAC.
Em 2024 e 2025, no âmbito do seu mandato como Presidente do Capítulo Português da ASHRAE, integrou a comissão organizadora da Conferência dos Capítulos Europeus da ASHRAE (CRC 2025), evento anual realizado em regime de rotação entre os capítulos europeus, cuja organização, nesse ano, esteve a cargo de Portugal.
A conferência foi organizada em coordenação com a nova Comissão de Climatização e Refrigeração da Ordem dos Engenheiros, tendo integrado, no dia 25 de setembro, as 25.as Jornadas de Climatização e Refrigeração da OE, que constituíram a componente técnica do CRC. O evento contou com a participação de especialistas da ASHRAE, no âmbito do seu programa de Distinguished Lecturers, bem como de outros relevantes oradores nacionais e institucionais, nomeadamente da REHVA e da AHRI.
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