Entrevista a Isabel Martins

Entrevista e fotos por Christina Genet
Especialista em engenharia de climatização, diretora técnica e fundadora da P.I.S.T. Lda. Licenciada em Engenharia Mecânica e com mais de três décadas de atividade profissional no setor do ar condicionado, Isabel Martins fala sobre o papel das mulheres na profissão e sobre a evolução da regulamentação dos projetos.
Como é que começou a sua carreira no setor do ar condicionado?
Entrei para a Gaspar Correia em 1988, precisamente quando terminei o curso, foi o meu primeiro emprego. Comecei por fazer um estágio e depois acabei por ficar na empresa, trabalhava na área da direção técnica e não diretamente nas obras. Tive a sorte de começar a minha carreira ao lado de um dos maiores “gurus” do ar condicionado, o engenheiro António Cardoso. Foi fantástico trabalhar com ele, tinha uma postura muito pedagógica e gostava de ensinar. Foi uma experiência muito boa.
Tem alguma situação ou recordação especial com o Eng.º António Cardoso que queira partilhar?
Era uma pessoa muito ativa e engraçada. Por exemplo, para ele, quem devia estar mais confortável na empresa eram sempre as pessoas das obras – nós, no escritório, devíamos estar em segundo plano. E era mesmo assim: estávamos muitas vezes num calor horrível, e passávamos a vida a “roubar” o ar condicionado uns aos outros. Abríamos mais a grelha para o nosso lado e os colegas das obras, quando chegavam ao fim do dia, fechavam-na novamente. O Engenheiro dizia sempre que o coração da empresa eram as obras, porque eram elas que traziam o dinheiro – e, portanto, quem devia estar confortável eram os que lá estavam.
Como operavam as grandes empresas de instalação nessa altura?
Na altura havia duas grandes “escolas” de ar condicionado em Portugal: a Gaspar Correia e a Termociclo. A principal diferença em relação ao modo como as empresas operavam estava na falta de regulamentação e de informação técnica que hoje existe. Já começava a surgir um programa da Carrier em disquete para fazer o cálculo de cargas térmicas, mas praticamente tudo o resto era feito à mão – não havia simulações dinâmicas, nem ferramentas digitais.
Também houve desde então uma grande evolução na presença e aceitação das mulheres no setor. Naquela época, ver uma mulher numa obra era algo muito raro.
Apesar disso, o setor do AVAC continua a ser muito masculino hoje em dia. Partilha dessa perceção?
Sim, sem dúvida. É ainda um dos setores mais masculinos que existem. Na Construção Civil já vemos muitas mulheres a trabalhar, inclusive como diretoras de obra. Mas no ar condicionado o caminho faz-se de forma mais lenta, embora já se notem algumas mudanças.
Como foi a sua experiência enquanto uma das poucas mulheres a trabalhar no setor do ar condicionado em Portugal há já várias décadas?
Na primeira empresa onde trabalhei, a Gaspar Correia, desempenhava um papel mais resguardado. Estava na direção técnica, que prestava apoio às obras de maior dimensão – e nessa altura a empresa tinha várias. Fui destacada para uma dessas obras, a da Caixa Geral de Depósitos, onde tinha o meu posto num contentor de obra. Dávamos apoio direto ao diretor de obra, mas o meu contacto com os operários era limitado. Lembro-me de que logo no início o encarregado da obra me disse: “Não deve duvidar nunca da ordem que dá. Uma ordem é para cumprir, e ponto final. E se tiver algum problema, fale comigo.”
Uma vez, quando cheguei à obra e me dirigia para o contentor, vi alguns operários a montar condutas. Eram do ar condicionado e começaram a mandar piropos – daqueles desagradáveis. Quem trabalha em obras sabe que há piropos e piropos. Os inofensivos passam-se à frente, mas os outros não. Então, liguei para o encarregado e pedi-lhe que viesse ter comigo. Quando chegou, perguntei-lhe se podia falar um minuto, expliquei o que se tinha passado, e ele respondeu de imediato: “Mostre-me quem foi.” Essa atitude marcou-me. Ajudou a impor respeito e a fazer perceber que, num local de trabalho, há limites. Nesse aspeto, ele tinha razão. Felizmente, ao longo da minha carreira, encontrei sempre pessoas muito corretas. Pode haver quem tenha histórias diferentes, e acredito que sim, mas pessoalmente nunca me senti mal ou desconfortável numa obra. (...)
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