Calor extremo provoca cerca de 546 mil mortes por ano

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Christina Genet
Um relatório da Sustainable Energy for All alerta para as desigualdades no acesso ao arrefecimento e defende uma abordagem integrada que articule eficiência energética, conceção dos edifícios e resiliência das comunidades.
A mortalidade associada ao calor aumentou 63 % desde a década de 1990, tendo atingindo uma média anual estimada de 546 mil mortes entre 2012 e 2021, segundo a edição especial do relatório Chilling Prospects: Heat Vulnerability & Mortality, publicado pela Sustainable Energy for All (SEforALL). O estudo analisa a vulnerabilidade ao calor, as limitações no acesso ao arrefecimento e as oportunidades de adaptação.
De acordo com o relatório, o impacto do calor extremo permanece subavaliado, sobretudo na África Subsariana, no Sul e Sudeste Asiático e na América Latina e Caraíbas. Nestas regiões, as lacunas nos sistemas de registo de óbitos, a escassez de estudos epidemiológicos e as limitações das metodologias existentes dificultam a avaliação da verdadeira dimensão do problema.
A vulnerabilidade é também profundamente desigual. Mais de mil milhões de pessoas em situação de pobreza, tanto em zonas urbanas como rurais, correm o risco de não ter acesso a soluções de arrefecimento. A exposição ao calor conjugada com condições habitacionais inadequadas, pobreza energética, falta de acesso fiável à eletricidade e ausência de sistemas de climatização mecânica, agrava os riscos para a saúde.
O arrefecimento passivo como primeira linha de defesa
O relatório destaca ainda a importância de uma estratégia hierarquizada de arrefecimento, que privilegie a redução das necessidades de arrefecimento antes da instalação ou utilização de sistemas mecânicos.
O sombreamento dos edifícios, a ventilação cruzada, a utilização de superfícies refletoras e a arborização urbana são apontadas como medidas fundamentais para reduzir os ganhos de calor e as necessidades de arrefecimento. Estas soluções permitem simultaneamente reduzir a procura de energia, aliviar a pressão sobre redes elétricas vulneráveis e diminuir os custos de exploração dos sistemas.
A integração de estratégias passivas desde a fase de conceção é particularmente relevante num contexto de rápida urbanização. Segundo a SEforALL, uma parte substancial dos edifícios que existirão em 2050 ainda está a ser construída, sobretudo em países onde os regulamentos relativos ao desempenho energético dos edifícios são pouco exigentes ou inexistentes. No entanto, em condições de temperatura e humidade extremas, o ar condicionado pode tornar-se indispensável para a sobrevivência.
Eficiência, acesso à energia e resiliência
O relatório sublinha, contudo, que os países onde se poderão registar os maiores aumentos da mortalidade associada ao calor até 2050 são também aqueles onde se prevê menor disseminação de equipamentos de ar condicionado e onde as infraestruturas elétricas apresentam maiores fragilidades.
Neste contexto, a resposta não pode limitar-se à instalação de equipamentos, insistem os autores do relatório. A SEforALL defende políticas que combinem o acesso à energia, a melhoria das condições habitacionais e o planeamento urbano.
Cerca de 60 % da população africana não dispõe de sistemas de alerta precoce para ondas de calor. Paralelamente, a análise identifica 16 mil milhões de dias-pessoa potencialmente expostos a calor extremo sem acesso básico à eletricidade, tendo em conta a sobreposição entre episódios de calor registados em 2024 e lacunas no acesso à energia.
O relatório aponta, assim, para a necessidade de encarar a mortalidade associada ao calor como um risco recorrente e previsível, que exige investimento antecipado e soluções adaptadas a cada contexto climático e socioeconómico. A proteção térmica das populações e o arrefecimento passivo assumem, neste contexto, um papel determinante na saúde pública.
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